As eleições, a metafísica e “essas pessoas” *

Foi triste ouvir o camarada Luís Fazenda (e não “essa pessoa”) a tratar o camarada Pedro e o camarada Matias como “essas pessoas”. Entende-se! É preciso acirrar os ânimos para fazer o caminho de embotar os espíritos, acirrar sectarismos, elevar as animosidades ao máximo para tentar que se perca a lucidez de raciocínio.

Pois não vamos por esse caminho!

Queremos mentes limpas e abertas a pensarem pela própria cabeça e a levantarem as interrogações que a realidade objetiva obriga a fazer.

Somos todos camaradas do mesmo partido, com os mesmos direitos e deveres.

Há muito que abandonámos o caminho da linha negra e da linha vermelha. Pelo menos muitos de nós …

Há muito que abandonámos, e iniciámos a crítica, teórica e prática, ao princípio do pensamento único cujo caminho de desastre ficou demonstrado com a queda dos regimes chamados de socialistas na década de 90.

E não vale mentir!

O camarada Luís Fazenda nessa entrevista disse que são análises metafísicas, as do Pedro e do Matias, pois negam que tenha havido bipolarização.

Assim não vale!

Ninguém afirmou que não houve uma enorme bipolarização. O que se disse, e se repete, é se com bipolarização as forças de esquerda alternativas estão condenadas à derrota.

Eis a resposta que hoje é preciso dar com coragem e camaradagem!

Olhemos para a história recente do nosso partido, o Bloco de Esquerda.

Em 2015 fizemos, e muito bem, um acordo de sustentação parlamentar do Governo do PS, com o objetivo claro de não deixar a direita tomar conta do Governo e de iniciar a reposição dos direitos que o governo PSD/CDS/Troika tinham roubado ao povo trabalhador.

Em 2017, depois de muitos desses roubos terem sido repostos, vários camaradas colocaram que era necessário apresentar novos objetivos desse apoio parlamentar, para que o povo trabalhador ganhasse melhor vida e se justificasse tal apoio parlamentar. Tal não foi a opinião da maioria sob o pretexto de que iriamos perder muitos apoios populares (Hoje está à vista desarmada como perdemos de facto apoios populares nesta permanente pedinchice de “queremos um acordo com o PS”).

Em 22 de Setembro de 2019, nas eleições regionais da Madeira, perdemos cerca de 50% do nosso eleitorado, passando de 4.850 votos para 2.489, perdemos os dois deputados que tínhamos e a representação parlamentar regional. Olhamos para estes factos? Porque perdemos?

Em 6 de Outubro de 2019, nas eleições legislativas nacionais, perdemos 10% do eleitorado (50.875 votos), passando de 550.892 para 500.017, tendo conseguido mesmo assim manter a bancada parlamentar de 19 deputados. Olhamos para estes factos? Porque perdemos 10% da votação?

Em 24 de Janeiro de 2021, nas eleições presidenciais perdemos 304.841 votos, passámos de 469.582 votos nas presidências de 24/01/2016, para 163.749. Olhamos para estes factos? Porque perdemos?

Em 26 de Novembro de 2021, nas eleições autárquicas, perdemos 32.479 votos, passando de 170.039, em 2017, para 137.560. Aqui a derrota assumiu maior gravidade pois perdemos 2/3 dos vereadores eleitos,  passando de 12 vereadores eleitos para 4. Olhamos para estes factos? Porque perdemos?

Em 30 de Janeiro de 2022, agora, perdemos 310.627 votos em relação a 2015 e 259.742 em relação a 2019, com isto perdemos quase ¾ da bancada parlamentar passando de 19 deputados para 5. Olhamos para estes factos? Porque perdemos?

Neste trajeto de 2015 até às eleições do passado domingo, houve mais duas eleições. As regionais dos Açores onde mantivemos os dois deputados regionais e tivemos um ligeiro aumento de 548 votos, e tivemos as eleições europeias onde em 26/5/2019 tivemos um crescimento muito importante tendo passado de 149.628 para 325.806, mais 175.806 votos, elegendo dois deputados duplicando a bancada do Bloco. É bom notar que nesta campanha europeia o lema não foi termos uma votação melhor para fazermos uma aliança com o PS … foi um combate às políticas europeias.

Estes são os factos. E contra factos não há argumentos.

Isto não é metafísica!!!! Esta é a realidade material e inegável!

Fica a pergunta: se agora não refletimos, não nos interrogamos, não mudamos de linha política, é caso para lembrar aquela brincadeira de mau gosto de que iremos de derrota em derrota até à derrota final.

É um dever inadiável e irrecusável de quem quer defender o Bloco de Esquerda colocarmos sem pejo todas as interrogações e respostas que invertam esta caminhada de derrotas desde 2017.

Metafísica? Metafísica só se for no pensamento da direção que se recusa a ser objetiva, realista e materialista.

Precisamos de afirmar que a política de namoro permanente ao PS da pedinchice de um acordo, levou a esta realidade triste e amargurante.

Mas nunca desistimos da Luta. O Bloco precisa de se afirmar como alternativa global da esquerda a este regime de roubo permanente da felicidade e do bem-estar do nosso povo.

Sempre lutaremos por medidas concretas que melhorem o dia a dia dos trabalhadores ativos, desempregados, precários e reformados, mas faremos esta luta repetindo uma frase bem antiga “Nada temos a esperar do PS”.

Não se trata de sectarismo, nem de esquerdismo ou proclamações vãs. Trata-se de lutar para engrossar o exército dos que lutam por uma outra sociedade, ecossocialista, afirmando o Bloco como uma verdadeira alternativa da esquerda.

* Carlos Marques

3 pensamentos sobre “As eleições, a metafísica e “essas pessoas” *

  1. O desabafo do Carlos faz todo o sentido e os factos evocados são indesmentíveis, mas permanece a questão. Se tudo isso era e é conhecido por todos, como se explica que nada fosse feito para obviar ao problema e dar a volta por cima?
    Palpita-me que a resposta é exactamente aquela em que estamos a pensar. Será???????

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  2. Por esses mesmíssimo argumentos expostos pelo Carlos Marques e por não estár hipotecado a justificar o lugar de aderente ao partido, resolvi desvincular-me após anos de militância anónima e fiel nas horas do voto. Por não pactuar com esta dupla face de quem dirige o BE – uma para o exterior e outra para o inrerior, mostrando demasiado apego aos lugares – e não concordar com a estratégia seguida. A luta faz-se em cada lugar onde nos possamos reconhecer nos que nos rodeiam ou que dirigem.

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