“Adeus Lenine”

por Mário Tomé

Num recente artigo saído no Esquerda.net o camarada Alberto Matos pergunta se ficamos com Lenine ou com o império. Isto depois de um rápido vol d’oiseau pela relação atribulada da Rússia com a Ucrânia que transporta, a propósito, para a actual relação…bélica.

Alerta para o facto de a Rússia de Putin nada ter a ver com a URSS, alerta esse desnecessário porque ninguém minimamente informado cairia nessa clamorosa confusão a não ser pelo apego a soluções políticas ditatoriais que irmanam Stalin e Putin.

O que acontece com certa facilidade entre aqueles que, munidos das melhores intenções, sentem necessidade de pulsos fortes e da segurança que lhes dá viverem em protectorado.

Alberto Matos acusa Putin de invocar a “descomunização” da Ucrânia para justificar a invasão. Não é que isso importe muito, mas a alegação de Putin é a de “desnazificação da Ucrânia” o que não deixa de ser irónico.

Mas tem uma base histórica que Alberto Matos esquece na sua passagem pela II Guerra Mundial e a luta dos povos soviéticos contra os “hunos” de Hitler: o apoio significativo dos ucranianos aos invasores nazis recebidos como libertadores.

Este apoio tem, contudo, uma razão objectiva importante: o “Holodomor” ou genocídio ucraniano consequência da política stalinista de industrialização apoiada numa colectivização forçada e controlo e extorsão da produção agrícola que provocou milhões de mortos pela fome.

Quando os nazis mantiveram o mesmo quadro de feroz repressão, a mesma organização da produção no campo de “matar pela” fome e uma política de deportação e genocídio dos judeus, os ucranianos tornaram-se determinados combatentes pela libertação da URSS sob a orientação… de Stalin; não sem que tivessem ficado sementes que frutificaram no batalhão Azov e outras como os devotos do nazi Stephan Bandera.

Na história não se pode fazer analogias, mas apenas comparações, como sublinhou Eric Hobsbawm; este um bom aviso para aqueles que, como nós, se servem da história para abordar o mundo e as contradições políticas e sociais com que nos defrontamos.

Contudo, se a história não se repete, ela rima como diz com graça Margaret Atwood.

É talvez altura de nos interrogarmos a que império se refere Alberto Matos quando nos questiona se estamos com Lenin ou com o império.

Quer a China quer a Rússia são potências com peso económico e militar muito importante, mas relativo embora quando a China espirra – como está a acontecer agora – o mundo da economia se constipe e fique a paracetamol para prevenir uma pneumonia.

A Rússia sustenta o seu poder relativo na exportação das imensas matérias-primas que pode usar como arma contra quem delas dependa, mas principalmente na ameaça nuclear que usa desde que se deparou com a resistência ucraniana.

Mesmo nos tempos da União Soviética, e ela não seria tão poderosa assim, a sua ameaça para o imperialismo (só há um! o dos USA e mais nenhum) para além da persistente arma nuclear foi a de apoiar as lutas anticoloniais de libertação inspiradas, naturalmente, pelo pensamento revolucionário socialista internacionalista que supostamente a URSS tinha como base da sua Constituição e da sua organização social; e seria ainda a de poder contar, supostamente, com o exército dos trabalhadores prontos para a luta, dentro da fortaleza imperialista, pelo socialismo que, por demasiado dependente das orientações da Pátria mãe e do Partido pai foi desaguar num pântano onde ainda hoje chapinhamos.

O orgulho de Alberto Matos quando gritávamos “Nem NATO nem Pacto de Varsóvia” é justificado, na luta pela Paz, mas o que sustentávamos então sobre o carácter imperialista da URSS carecia de demonstração… leninista.

O imperialismo caracterizado por Lenin como fase superior do capitalismo continua, na era da globalização e na sua essência, o mesmo de sempre ou seja a dominação económica e o poder militar que hoje integram o FMI, o Banco Mundial, a OMC , o CIM (Complexo Industrial Militar) e todo o controlo do ciberespaço, e de forma cada vez mais explícita a UE, a Austrália e as Américas sob a hegemonia absoluta da grande superpotência imperialista, os EUA que, no contexto da globalização, têm no liberalismo/“social-democracia” (a que também chamam democracia para endrominar os incautos) a sua ponta de lança e guarda avançada para justificarem todos os crimes contra a humanidade que têm vindo a cometer directa ou indirectamente.

O general norte americano Simedley Butler em 1935 resumiu assim as suas três décadas de acção como oficial de marines: “Eu fui um pistoleiro do capitalismo” acrescentando que podia dar alguns conselhos a Al Capone, porque os marines operavam nos três continentes e Capone actuava apenas em três distritos de uma só cidade.

A classificação quer da Rússia quer da China como potências imperialistas carece de rigor e apenas serve para sustentar as manobras dos EUA de domínio global.

O carácter explicitamente ditatorial daquelas potências coloca-as sob o fogo cínico das “democracias ocidentais” e permite afirmações incendiárias do ponto de vista das relações internacionais, que parece ninguém notou, como as da presidente da Comissão Europeia, Ursula van der Lyen, quando afirmou que “o nosso objectivo é um mundo a reger-se pelos nossos princípios”.

A cada vez mais instrumental Ursula van der Lyen anunciou um novo “pacto de Defesa da Democracia, que trará à luz influência estrangeira dissimulada e financiamento sombrio.” e que a Europa “não vai permitir que nenhum cavalo de Troia da autocracia ataque as democracias europeias”. E mais: “Os ganhos da nossa longa jornada não estão garantidos e temos de proteger as nossas democracias tanto das ameaças externas que enfrentam como dos vícios que as corroem a partir de dentro”.

Já não é só… cuidado «Vêm aí os russos» como na comédia de Norman Jewison de 1966 mas “Eles já estão cá dentro” … e vêm a cavalo, como na farsa de Ursula.

O que nos remete para o excelente drama realizado por George Clooney, “Boa Noite e Boa Sorte” passado nos saudosos tempos do senador McCarthy que fez carreira a perseguir os melhores intelectuais e artistas norte-americanos para proteger a democracia americana das ameaças externas e dos vícios que a corroíam a partir de dentro.

Dois livros importantes testemunham os métodos liberais e democráticos dos EUA quando esmagaram o movimento do Terceiro Mundo: “O Mundo nas Mãos”, Gradiva, do grande jornalista John Pilger e o “Método Jacarta”, Temas e Debates, de outro jornalista, Vincent Bevis, este jovem mas de créditos firmados como repórter e correspondente dos mais qualificados jornais norte-americanos e ingleses.

Segundo Bevis, numa das conclusões do seu livro, a chacina de quase um milhão de comunistas e outros trabalhadores e intelectuais indonésios assim como a brutal ditadura militar no Brasil ambos nos anos sessenta/setenta, e ambos sob o comando dos EUA, “levaram à criação de uma monstruosa rede internacional de extermínio – isto é, o sistemático assassínio maciço de civis – em muitos mais países a qual desempenhou um papel fundamental na construção do mundo em que hoje vivemos”.

Desta rede fez parte a “Operação Condor” nos inícios dos anos setenta na América Latina envolvendo os governos da Argentina, Chile, Uruguai, Paraguai, Bolívia, Brasil, Equador e Peru, que assassinou dezenas de milhar de trabalhadores e militantes de esquerda com especial realce para os crimes de Videla e Pinochet.

Mas para saber isto basta ir ao cinema produzido nos próprios EUA, prova de que a democracia é inepta mesmo quando temos heróis como o martirizado Julian Assange, mas ignorado pelos grandes democratas da imprensa e dos democratíssimos governos ocidentais – leia-se do complexo imperialista -, a denunciarem com provas materiais insofismáveis os crimes monstruosos dos governos dos EUA.

A URSS foi o pretexto – o Pacto de Varsóvia desfeito como prova de boa vontade face a uma NATO sempre em crescendo – para a guerra fria e a imposição do domínio mundial norte-americano; agora, arranja-se uma Rússia (mais umas negaças fortes à China), potência nuclear como a França, o Reino Unido, a Índia e Israel estes dois fora do “Tratado de Não Proliferação de Arma Nucleares”, a colaboração nas estações espaciais e as matérias-primas mais a ditadura protofascista de Putin e a sua agressão brutal à Ucrânia para ser considerada imperialista pelo main stream e pelos vistos por Alberto Matos.

A simplificação dos termos para fins práticos nada tem de marxiano nem de leninista, mas é o que Alberto Matos está a fazer: a Rússia impõe uma guerra brutal à Ucrânia que Biden sustenta com o intuito de “enfraquecer a Rússia”. Obliterando a questão fulcral: como parar uma guerra que está a destruir um país e a martirizar um povo, que é obrigado a resistir quanto pode, mas quando, desde o início, as condições para um cessar-fogo e um acordo de paz estão em cima da mesa, só que ignoradas.

O “anti-imperialismo” russo dá para esquecer com demasiada facilidade o imperialismo americano e o seu inegável papel de promotor brutal e facilitador da guerra infinita como o Bloco muito bem definiu, e de primeiro interessado na sua continuação, como qualquer olhar, mesmo pouco atento, verá e a própria Hollywood se encarregará de mostrar como já fez com o Vietnam, o Iraque e por aí.

E sobre as condições para a paz e as proclamações patrióticas do já oligarca Zelensky é tempo de seguir Alberto Matos e voltarmos a Lenin.

A paz de Brest-Litovsky assinada a 3 de Março de 1918 – tendo sempre presente que em história não há analogias mas comparações – foi tão simples (claro que não!) como isto: a revolução teve como bandeiras “a paz, o pão e a terra”. O governo Bolchevique tinha que sair da guerra em que a Rússia era aliada da Inglaterra, França, EUA contra a Alemanha e seus aliados. A Alemanha tinha ocupado parte significativa da Rússia, cerca de um milhão de quilómetros quadrados que incluíam a Lituânia e grande parte da Polónia. A Alemanha só aceitava negociar a paz mantendo a ocupação. Para Lenin o fundamental e prioritário era o fim da guerra como prometera ao martirizado povo russo e para salvar a revolução.

E, portanto, aceitou as condições draconianas impostas pela Alemanha e seus aliados: a paz sim, mas só mantendo os milhões de quilómetros ocupados!

Quer dizer que, para Lenin, houve razões que se sobrepuseram ao território ocupado pelo inimigo: conseguir a paz e libertar o povo da guerra.

Aliás, de acordo com o que já proclamara como linha a seguir pelos partidos sociais-democratas e socialistas quando foram chamados a votar os créditos de guerra: um rotundo não. Mas o nacionalismo chauvinista falou mais alto entre aqueles que se reivindicavam do internacionalismo. E milhões de operários foram atirados para a chacina brutal.

Esta guerra serve, enquanto durar, os interesses de Putin na tentativa de reforçar e consolidar o seu poder mostrando força militar onde lhe vai faltando força política; no meu artigo de Março último “Se queres a paz prepara a paz; não a guerra” sublinhei que a “Federação Russa não tem capacidade militar, nem económica, nem anímica para tão estranha ambição”: tomar conta da Ucrânia e… avançar- segundo estrategas como Milhazes- sabe-se lá, arrasando a Europa.

Serve os interesses de Zelensky e sua quadrilha impondo ao povo um brutal sacrifício para que não o confronte pela sua política ditatorial e de libertinagem liberal que privatizou a terra e desmantelou sob as ordens das multinacionais o que restava de direitos dos trabalhadores e de liberdades cívicas e políticas.

The last but not the least e voltando ao imperialismo, a continuação da guerra na Ucrânia só interessa, estrategicamente, ao imperialismo (norte-americano, não há outro) que em última instância a provocou e promoveu: boa parte da dependência energética da Europa passará da Rússia para os EUA, o brutal incremento da indústria do armamento ajuda a combater a crise, as exportações da Ucrânia já foram apropriadas em boa parte pelos grandes conglomerados transnacionais que integram o imperialismo, qualquer agravamento da guerra não os atinge directamente a não ser na hipótese improvável, mas acenada de forma intimidatória por Putin, de um holocausto nuclear.

Finalmente, esta guerra já conseguiu em resumo e em geral, que se deitassem às urtigas os acordos de descarbonização que nenhuma potência do império quer levar a sério.

Já estávamos com algumas saudades: Viva o petróleo, o carvão e de novo, com música, a energia nuclear.

Isto sim é o bom do imperialismo a funcionar!

Mário Tomé

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