ADRIANO CORREIA DE OLIVEIRA: TRANSFORMAR A MÚSICA, TRANSFORMAR O MUNDO

por Alberto Guimarães

(…)

Eu queria o canto justo na verdade

Da liberdade só do canto

Tenra, limpa, lúcida, e no entanto

Sei que só sei querer viver

De amor e música

Caetano Veloso in “Canção de Protesto”

Nos tempos cinzentos de antes do 25 de Abril, um trovador cantava desabridamente palavras de Manuel Alegre: «Venho dizer-vos que não tenho medo/ A verdade é mais forte que as algemas.» Adriano Correia de Oliveira usou a trova, a canção, como forma de projetar um Portugal possível de ser de ser feliz e justo, ao mesmo tempo que encontrou novos caminhos para a música portuguesa.

Adriano Correia de Oliveira integrou-se num movimento de compositores e cantores no tempo em que, como refere Manuel Alegre «acreditava-se na força mágica da palavra poética e na sua capacidade para, como queria Rimbaud, mudar a vida ou, como profetizava Marx, transformar o mundo».

Adriano nasceu em 9 de abril de 1942 no Porto, na Rua Formosa, 370, uma casa que hoje se mostra triste de abandonada e que a todo o momento pode surgir refeita (ou rarefeita) com interiores de pladur, no atual processo que parece incontrovertível de transformação da cidade. Mas isso são outros cantos.

Fixemo-nos em Adriano que pouco depois do seu nascimento foi residir para a margem do Rio Douro, na Quinta das Porcas, em Avintes, Vila Nova de Gaia. Em Avintes, Adriano viria a ser sócio fundador da União Académica de Avintes, clube que em 1958 se inscreveu na Associação de Voleibol do Porto. Generoso, essa foi uma das famas que deixou ao longo da sua vida, Adriano participou ativamente na vida associativa local.

Mas o Porto não pode ter deixado de marcar Adriano que na cidade das pontes estudou no Colégio de Almeida Garrett e no Liceu Alexandre Herculano. E a editora que gravaria todos os seus discos, o selo Orfeu, de Arnaldo Trindade, estava sediada no Porto.

Em 1959 Adriano mudou-se para Coimbra com a finalidade de estudar Direito. Já levava o gosto pela música, pois como lembrou, José Niza, seu amigo e colega de Coimbra e das futuras atividades musicais, «trazia uma viola elétrica na mão. E, na cabeça, outras músicas que não eram fado». O fado de Coimbra, porém o encantaria, o acolheria, não desperdiçando o seu belo timbre de voz. Em 1960, salientou José Niza, Adriano já tinha gravado um disco de fados de Coimbra.

Em Coimbra conheceu José Afonso e Manuel Alegre. E viveu toda uma sucessão de acontecimentos que incendiou artisticamente e politicamente Coimbra. Ao mesmo tempo que se iniciava a Guerra Colonial, a esquerda ganhava a Associação Académica de Coimbra, com Carlos Candal na sua presidência. «Na Associação Académica despoletava uma série de criatividades e diversidades», recordou também Niza.

Rui Pato, contemporâneo coimbrão de Adriano e Zeca Afonso (variadas vezes acompanhou ambos à viola), descreveu em 2009 o quadro em que se desenvolveu a intervenção de Adriano: «Dentro da canção de Coimbra, temos o fado tradicional que o Adriano cantou, temos depois a balada que o Zeca começa a fazer, como também mais tarde o Adriano (“O Canto e as Armas” é todo de baladas), e a trova. A trova é uma tentativa que o (António) Portugal e o Adriano fazem, quanto a mim de uma maneira muito inteligente, de tentar com novos temas, com novas poesias, com poesias de intervenção, mas sem perder a raiz da canção de Coimbra. Portanto, introduzindo também a guitarra mas com outros temas, outras harmonias, de modo a que aquele movimento que tinha sido iniciado pelo Zeca, não pudesse pôr em causa definitivamente a continuidade do fado. Era necessário renovar, digamos, a canção de Coimbra e o Zeca não o estava a fazer, porque tinha feito uma rotura completa nessa altura. E por isso o Adriano é, ainda hoje, o grande inovador da canção de Coimbra.»

Adriano não causa uma rotura no fado de Coimbra, abre novos e prospetivos caminhos. Caminhos paralelos ao movimento social e político: “Trova do Vento que Passa” é cantada pela primeira vez em público num contexto académico politizado de engajamento com a liberdade, na Faculdade de Medicina de Lisboa em 1965. Nas lutas académicas de Coimbra, em 1968, volta de novo a ser entoada.

«O Adriano foi o maior trovador da geração dele, o mais corajoso. Foi um homem muito fraterno, muito generoso. Outros lutaram de outras maneiras, ele lutou com poemas, com  uma viola e com canções. Dessa maneira ajudou a instaurar a liberdade em Portugal.», disse Manuel Alegre em 2002.

Com o 25 de Abril de 1974, liberdade conquistada, Adriano percorreu com entrega o país a cantar e gravaria, por exemplo, palavras de Manuel da Fonseca: «Tejo que levas as águas / Correndo de par em par / Lava a cidade de mágoas / Leva as mágoas para o mar». As mágoas matam e não deveriam existir num país que se queria novo.

Adriano Correia de Oliveira viria a morrer muito novo, com 40 anos em 1982.

A atenção à obra de Adriano Correia de Oliveira é grande. Mostra disso é que em 1985, a entretanto também falecida cantora brasileira Nara Leão, no palco do Rivoli do Porto, dedicou a sua apresentação a Adriano Correia de Oliveira. Nara, se foi a Musa da Bossa Nova, era também uma cantora bem atenta ao que de marcante e inteligente se ia fazendo na música.

Mas a vida faz-se também de desatenções. Em reunião privada da Câmara Municipal do Porto, realizada em 4 de abril de 2022, foi aprovada por unanimidade uma saudação às comemorações dos 80 anos de Adriano Correia de Oliveira. Contudo, quando se votou a associação da Câmara Municipal do Porto às referidas comemorações, a mesma foi recusada com apenas três votos a favor dos vereadores do PS, do voto da vereadora do PCP, contando com a abstenção do vereador do Bloco de Esquerda.

As comemorações dos 80 anos de Adriano Correia de Oliveira prosseguem. Adriano tem uma rua com o seu nome no Porto. Mas nunca será demasiada a deferência da sua cidade natal, através dos seus e das suas representantes, para com um homem que tanto amor imprimiu à música, ao canto e à liberdade.

Foto cedida pelo Centro Artístico, Cultural e Desportivo Adriano Correia de Oliveira.

Fontes:

http://www.avintes.net/v_avintes/clubes/uaa.htm

Adriano Correia de Oliveira, Trova do Vento que Passa, Público – Comunicação Social, S.A., 2007

E Ela Não Mudou de Opinião”, do livro ‘O APOJO DAS NINFAS, de Danyel Guerra, Aleph, Porto, 2014.

Eduardo M. Raposo, Cantores de Abril, Editor Fernando Mão de Ferro, Lisboa, 2014.

Alberto Guimarães

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