IV Conferência nacional – intervenção de Adriano Zilhão

As intervenções na IV Conferência Nacional que forem enviadas para convergencia.bloco@gmail.com com o respetivo texto ou síntese, serão colocadas online e ficarão acessíveis aos/às militantes do Bloco. Todas serão publicadas, independentemente de qual ou quais as propostas em debate a que manifestarem apoio ou posição crítica. A plataforma Convergência – Espaço Ecossocialista está ao serviço do debate democrático e do diálogo no BE.
Transcrevemos de seguida a intervenção de Adriano Zilhão.

Intervenção de Adriano Zilhão na 4º Conferência Nacional do Bloco

Caros camaradas,

O princípio desta conferência é ser nacional. Sobre um assunto específico, portanto, segundo os estatutos. Mas o assunto é tudo menos específico – é o rumo estratégico do Bloco. E, como não é convenção, nada decide.

Em obediência a este curioso princípio, submeto ainda assim à benévola consideração do secretariado que o problema principal do texto que ele apresenta é que não faz as perguntas certas para se poder fazer um balanço sério e traçar um novo rumo.

Exemplifico.

  1. Sobre a escola pública

diz o texto do secretariado que “a escola pública vive uma crise existencial que é o fruto direto das opções do Partido Socialista no governo. [Ao longo dos últimos anos, ] só a pressão do Bloco impôs a vinculação adicional de professores contratados, ainda assim em número muito insuficiente, optando o PS por deixar degradar-se a qualidade do ensino, com graves atrasos na colocação de professores.”.

Ora, a pergunta certa para fazer o balanço nesta matéria é esta:

Porque é que, após seis anos de governo do PS apoiado pelo Bloco (e PCP), os professores não conseguiram recuperar os anos de carreira roubados pela troika?

E uma pergunta adicional: então o pouco que os professores conseguiram foi pela “pressão do Bloco” sobre o PS?!!! Não foi a mobilização dos próprios professores?

Os professores, camaradas, que fizeram o que puderam – mas ficaram, de facto, sozinhos, politicamente sozinhos, enquanto as pressões se perdiam pelos passos de S. Bento.

Não será, então, o verdadeiro balanço este:

O apoio ao governo por parte do Bloco e PCP, em quem milhares e milhares de professores confiavam para corrigir as injustiças de que foram alvo, paralisou a resistência dos professores ao governo e permitiu o avanço da política de destruição da escola pública do governo PS”?

2) Sobre a TAP (palavra que se procura em vão no texto do secretariado, que, portanto, não faz pergunta nenhuma)

Quando o ministro mais à esquerda do governo do PS impôs à TAP cortes de salários e direitos como nem sob a troika fora possível, todos, creio, tivemos um momento de incredulidade.

Ela passada, porém, milhares de trabalhadores da TAP viram-se sozinhos perante o conflito político de primeira ordem em que a UE e o governo às suas ordens transformaram o conflito de empresa.

Ouviu-se da parte da “terceira força política do país” algum apelo vigoroso à resistência laboral e política, à solidariedade e mobilização geral dos trabalhadores com sindicatos e comissões de trabalhadores, para repelir este ensaio geral da ofensiva do capital contra todos ?

Ouviu-se, ao menos, o núcleo do Bloco da TAP apelar à organização e resistência colectiva na empresa e no país?

(Qual núcleo? perguntarão os camaradas e perguntarão bem).

3) A resolução do Parlamento Europeu de 1 de Março (outra pergunta que fica por fazer no texto do secretariado….)

A resolução apela à mobilização massiva da NATO no Leste europeu; à preparação da NATO para a guerra, inclusive nuclear; a sanções e às famigeradas reparações de guerra, à destruição económica e militar da Rússia (não dos “oligarcas”); a que os governos europeus multipliquem as suas despesas de armamento e guerra; e a que façam pagar os consequentes sacrifícios aos seus próprios povos.

Os eurodeputados do Bloco votaram esta resolução.

Semanas mais tarde, os deputados do Bloco ao Parlamento português aplaudiram, de pé, durante minutos, o discurso do sr. Zelenski, o jogral dos Putins da Ucrânia.

Não tenho tempo para comentar – mas será preciso?

Assim, o balanço correcto, para mim, é este:

– os resultados eleitorais de 2015 foram a consequência eleitoral do levantamento popular do “Que se Lixe a Troika”.

– as poucas, mas bem-vindas, reposições conseguidas sob o governo saído dessas eleições foram o resultado dessa mobilização de milhões – não da “pressão do Bloco” ou fosse de quem fosse.

– já a distribuição de dezenas de milhares de milhões de euros à grande finança (BES caso mais drástico) foi a expressão de que quem continuava a mandar no governo era a troika.

– e a colaboração da direcção do Bloco e do PCP com esses governos foi o que permitiu algemar os trabalhadores para não conseguirem nada mais.

– os resultados eleitorais de 2021 foram a consequência de tudo isto: se toda a gente dizia que ao jugo da troika não há alternativa, o melhor sempre era votar de maneira a impedir o regresso ao poder de novas encarnações do Passos.

Um novo rumo estratégico devia decorrer deste balanço

Ficou provado em que é que dá apoiar um governo atado de pés e mãos à política da troika (“respeito das obrigações internacionais do país”, diziam os acordos da geringonça): dá em atar de pés e mãos o movimento dos trabalhadores pelos seus direitos e permitir a continuação da política da troika sob uma retórica ligeiramente adaptada. E em dar cabo do Bloco.

A conclusão final é clara:

– nada pode nunca impedir o apoio, solidariedade e empenhamento absoluto do Bloco de Esquerda com todas as lutas dos trabalhadores;

– nada deve impedir a luta pela generalização das lutas a caminho da greve geral para derrotar a ofensiva deste e de qualquer governo ao serviço da União Europeia e do capital, seja qual for a etiqueta com que esse governo se ornamente.

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