A necessidade de o Bloco de Esquerda se repensar *

Kazimir Malevich (1878-1935), nasceu em Kiev, na Ucrânia. Quando se muda para Moscovo, em 1904, já leva consigo alguns quadros impressionistas de sua autoria. Tinha começado uma viagem em que a sua arte passaria pelo cubismo e o levaria ao abstracionismo geométrico através do suprematismo, fecundado nas suas reflexões da pura sensibilidade da arte.

Há um momento em que o trabalho artístico de Malevich se cruza com a Revolução de Outubro. Numa carta do grupo Unovis, que integra, escreve-se: «o vermelho mostra ao homem a nova via e nós mostramos a nova criação da arte»[1]. Porém, chegado a 1933, os seus quadros deixam de ser expostos em Moscovo onde o propagandístico realismo socialista era imposto pelo regime. E não eram propriamente acarinhadas pinturas críticas como a Cabeça de Camponês, de Malevich, onde se exibia um rosto sem traços singulares.

Vem tudo isto a propósito da situação que se vive atualmente no Bloco de Esquerda.

Os fracos e desastrosos resultados impostos pelo eleitorado no recente pleito para a Assembleia da República são tanto um falhanço da estratégia traçada pela direção do Bloco de Esquerda como um resultado da ausência de táticas e falta de mobilização por parte das estruturas locais do partido. Os militantes, as militantes, sentiram-se sem rosto, o que não podia deixar de acontecer numa estrutura política vertical onde o debate não se faz e as decisões partem de uma cúpula, sendo embaladas numa correia de transmissão que tenta aparentar fluidez democrática.

Uma identidade política faz-se num movimento de pessoas e ideias alicerçadas na realidade. Pode-se elaborar o juízo que isso não aconteceu no Bloco de Esquerda que se prendeu a jargões que não transmitiram concretamente preocupação pelos milhões de pessoas que em Portugal vivem no limiar da pobreza e que desesperam numa péssima qualidade de vida e longe da felicidade que deve envolver qualquer ser humano. Não que os atuais dirigentes sejam pessoas insensíveis ou que não tenham estado muitas vezes no lado certo da luta pela justiça social. Mas democracia não se compraz com vanguardas revestidas de desatenção e a decisão das pessoas por alguma razão remeteu o Bloco de Esquerda para reduzidíssimos assentos parlamentares.

Sobre o insucesso eleitoral do Bloco de Esquerda, já que se abordou questões de estratégia e tática, ouse-se aqui uma analogia. Na escrita como na política, ousar é preciso. Citando um manual militar: «… para Napoleão a Estratégia (ou a «Guerra» como ele a designa) era essencialmente uma questão de movimentos. Eram esses movimentos que permitiam, seja desorientar o inimigo acerca de intenção, seja aparecer-lhe de surpresa na retaguarda ou flancos, seja obriga-lo a dividir as suas forças, para se julgar forte em toda a parte e portanto provavelmente não o ser em parte alguma…»[2]. O Napoleão, no caso, pode não ser apenas externo mas interno, sermos nós próprios. Será que temos agido internamente de maneira a que todos e todas militantes sejam efetivamente ouvidos ou que quando isso acontece as pessoas e as estruturas locais não conseguem saltar um muro de centralismo e arrogância? Que outras razões podem ter existido para a derrota eleitoral? A real procura de resposta estas questões levarão a clarificar o motivo pelo qual nos fragilizamos e que limita o alcance da nossa ação política.

Já se percebeu, tardiamente, que existe no Bloco de Esquerda dispersão da militância. O estado das coisas inevitavelmente a isso levaria. Após vários desaires eleitorais que plasmam redução nas subvenções que alimentam a máquina partidária, busca-se apressadamente a adesão de novos participantes, na perceção de que há que fazer algo. Todavia, entende-se que um partido ao qual a vontade popular tem vindo a reduzir significativo apoio, necessita fazer mudanças na estratégia e nas táticas, exige (re)pensar-se. O Bloco de Esquerda pensar-se, tem a ver, muito além de nomes, pese que a renovação de dirigentes não pode ser descurada. Um partido tem de ser um organismo vivo e dinâmico.

Estão a decorrer plenários distritais de aderentes e pondera-se uma Conferência Nacional. Mas o quadro já exposto requer mais para que seja realmente auscultado e repensado o todo do Bloco de Esquerda de uma forma eficiente e sistemática: uma Convenção Nacional, que estatutariamente se define como o órgão máximo do Bloco. Essa Convenção Nacional extraordinária, que pode ser convocada pela Mesa Nacional ou pela vontade de dez por cento dos e das aderentes, valorizando o debate, produzirá por todos os lugares onde está o Bloco, reflexões e documentos, numa propulsão que espelhará democraticamente, tranquilamente, um rumo adequado à presente situação política, refletirá no longo prazo e constituirá assim um contributo de todo necessário, para a vida de quem trabalha e vive em Portugal. Uma Convenção que mobilize rostos plenos, com coração e cabeça na esquerda.

* Alberto Guimarães

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[1] Tzvetan Todorov. O Triunfo do Artista, Edições 70, Lisboa, 2017.

[2] Humberto Delgado, Estratégia e Táctica do Ar, Portucalense Editora, Porto, 1944.

Ilustração: Cabeça de Camponês (com Barba Negra), 1928-1932, óleo sobre tela, 55×44,5cm. Museu do Estado Russo, São Petesburgo.

Um pensamento sobre “A necessidade de o Bloco de Esquerda se repensar *

  1. Tenho pensado bastante sobre a necessidade de os partidos políticos, particularmente partidos de esquerda, procederem a uma reorganização interna profunda.
    Passo a explicar, se um partido político for lúcido e intelectualmente honesto, percebe que as democracias liberais em que vivemos sofrem de uma crise profunda de representatividade, na medida em que os representantes (que pertencem a uma elite classista) não representam os representados (a maioria dos cidadãos/cidadãs que não pertencem a essa elite). Ora a minha tese é que um partido político de esquerda não pode reviver internamente este modelo porque assim está precisamente a trair os objetivos que diz servir. Logo a partir desta constatação tem de elaborar todo um plano de reestruturação interna que passe pela análise da sua composição, modo de funcionamento e modo de comunicação.
    Poderia dizer mais ‘coisas’, mas não viriam a propósito num formato desta natureza, portanto fica apenas a sugestão.

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