Haverá falta de professores?

A assessora do senhor Director é peremptória: “tenho dois filhos no ensino superior, e já lhes disse, está fora de questão, virem para o ensino, nem pensar”. Descontado o sadismo – as condições laborais que impõe aos seus subordinados não são adequadas para os seus…- afirmação é reveladora do contexto socio profissional dos professores. Muito reveladora tendo em conta quem a produz.

Aquela dirigente escolar sabe como tem sido contínua a desvalorização salarial dos seus subordinados. Os mais novos têm um salário curto e pequeno para constituir família. Os mais velhos não esquecem a estagnação imposta na carreira. Menos ganhos e mais despesas. Com o teletrabalho, os custos de trabalho foram transferidos para os docentes, alguns adquiriram ferramentas informáticas, todos vêem subir a conta da electricidade…

A degradação laboral dos últimos anos sente-se no quotidiano. Já nem falo das resmas de impressos de duvidosa utilidade e nulo proveito que os professores são obrigados a preencher. E de como essa insana burocracia consome o tempo necessário à preparação de aulas. Nem falo do crescente autoritarismo dos senhores directores. Adiante. É mais significativa a crescente permeabilidade da escola às demandas dos Encarregados de Educação, demasiadas vezes descabida e contraproducente.

Têm conhecimento de toda esta degradação a senhora assessora que a implementa, os professores que a experimentam, e a generalidade da população que a conhece através da comunicação social. Poucas profissões estarão sujeitas a uma exposição tão pesada. E quase sempre tão negativa. Raramente os professores são notícia por bons motivos.

Até o discurso mediático dos representantes sindicais parece contribuir para normalizar a proletarização dos docentes. Aponta de forma repetida e insistente a perda de direitos e a falta de condições de trabalho, reais e insuportáveis, merecedores da mais acesa denúncia. Não entanto, este discurso não é devidamente acompanhado pela valorização social e, muito menos, identitária. Quase nunca é evidenciada a especificidade da profissão ou revindicado um estatuto diferenciado.

Ao contrário de outras profissões que viram os seus rendimentos descer mas mantiveram ou consolidaram o seu estatuto social, e com isso a sua capacidade de afirmação e intervenção social, os professores perderem rendimentos e estatuto. Porventura, a expressão mais singular dessa perda é a desfaçatez com que qualquer cidadão se permite opinar sobre a docência. A expressão mais “pornográfica” será o despudor com que as Associações de Directores se permitem opinar sobre as condições laborais. Enfim, os professores são ignoráveis. Coloco por hipótese, o cuidado da senhora assessora com a sua descendência advém, sobretudo desta insignificância social. Sem estatuto estariam condenados à irrelevância.

Nos últimos meses voltou a ser notícia de telejornal a falta de professores. Há um número crescente de reformas e são residuais os ingressos na profissão. A situação há muito que era expectável, até esperada. Mesmo antes do Crato. E foi ganhando contornos, nitidez, engrandecendo. Trespassou o olhar.

Ser professor não é projecto de futuro. Para os filhos da senhora assessora e para qualquer universitário com juízo. Face a esta situação, um governante honesto e esclarecido haveria de observar as razões deste desinteresse e tentar revertê-las. No caso dos professores seria até um exercício fácil e com reduzidos custos económicos. Aliás, creio que as medidas mais impactantes não trariam despesas acrescidas, reformular procedimentos ou potenciar recursos humanos dispensa gastos supérfluos. Na verdade, há falta de vontade política para reverter a situação.

As soluções apresentadas pelo Ministério revelam uma manifesta falta de vontade em suprir a falta de professores. A distribuição dos horários por preencher, através da imposição de horas extraordinárias, a professores já sobrecarregados só vem acentuar a degradação laboral. O mesmo resulta da propalada redução das habilitações académicas necessárias para desempenhar a profissão docente. Enfim, contribuições para o problema, longe da solução. Desconhecimento e inépcia?

Nem por isso. Talvez o Ministério faça outra leitura do momento. Diversa e contrastante. Recuar no tempo, perceber o sentido da diacronia, ajuda a reflectir. A falta de professores pode não ser um problema, mas antes uma oportunidade. Não arrepiando caminho, indo pelo que temos visto, os professores são cada vez mais dispensáveis. Por um lado, a digitalização dos conteúdos parece substituir, com proveito, o docente por um técnico informático. Por outro, a crescente intervenção de psicólogos e mediadores culturais é feita através de sobreposição e transferência de competências e decisão.

É certo, importa preencher a falta no sistema. Não necessariamente com professores. Esses são dispensáveis. A Escola Pública que estamos a construir não precisa de profissionais com conhecimento científico e com competência para os ensinar. Não tem falta de professores. Provavelmente terá menos nos próximos anos. A Escola também é feita de mudança. E pode continuar a funcionar senão sem eles, com um mínimo residual. A Senhora assessora não tem dúvidas sobre o que é melhor para os seus. Ela bem sabe o que faz.

Advinha-se uma Escola Pública com menos professores. Haverá quem lhes note a falta. Haverá quem note a falta de qualquer coisa. Como sempre, importa fazer escolhas e assumir propostas. Tenho para mim que uma Escola Pública de qualidade precisa de mais professores. Competentes, porém indisponíveis para colmatar falhas.

Luís Miguel Pereira

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